Nosso objetivo é fazer conhecida as doutrinas sobre as quais se fundamentam a Igreja Metodista, bem como explicar a importância e aplicação nos dias atuais. Conheça as doutrinas em detalhes:

1. Criação do Ser Humano e o Pecado Original

Introdução

Para coroar os sucessivos atos da Criação, Deus cria o homem e a mulher a sua imagem e semelhança (Gn 1:26-27). Mas afinal, em que somos semelhantes a Deus?

a – O Sentido Global da Imagem de Deus em Nós: O que nos faz diferentes dos animais e nos torna imagem de Deus é a capacidade de ter comunhão com Ele. Só os seres humanos podem se relacionar com Deus face-a-face, de maneira íntima e pessoal. João Wesley detectou três aspectos de imagem dos seres humanos com seu Criador:

• A IMAGEM MORAL – ao ser criado, o ser humano possuia a santidade, a pureza e o amor de Deus. Sua verdadeira natureza é ser santo, misericordioso, puro, livre, incorruptível e eterno.

• A IMAGEM NATURAL – isto significa que Deus criou o ser humano com perfeita liberdade de escolha não só em pequenas questões da vida, mas também naquelas que determinam seu destino. No estado de inocência ele podeia escolher obedecer a Deus ou não, sem qualquer interferência sobre sua capacidade de escolha (Gn 2:15-17).

• A IMAGEM POLÍTICA – Deus delega poderes aos seres humanos quando ordena o domínio sobre os habitantes do mar, dos céus e da terra (Gn 1:28) e a incumbência de dar nomes às outras criaturas (Gn 2:19-20; Sl 8:6-7).

b – O Pecado Original: O ser humano, usando a liberdade dada por Deus, escolheu DESOBEDECÊ-LO, ou seja, pecou. Este pecado acarretou funestas (desastrosas, fatais) conseqüências para toda a criação: conflito, desarmonia, mal-estar, morte. E arruinou o relacionamento com Deus e com outras pessoas. O ser humano perdeu sua verdadeira natureza. O pecado distorceu a imagem moral de Deus no ser humano, quebrando a sua comunhão com o Criador. Tornando-o injusto, desonesto, mau, violento (Rm 3:10-18).
Com o pecado, o ser humano perde a capacidade de escolher o Bem e a Vida, por si mesmo, pois sua imagem natural é danificada (Rm 7:14b-15). Também a imagem política, apesar de não ser destruída, fica difícil de ser exercida, porque a natureza torna-se hostil. Mas para sobreviver, o homem e a mulher, terão de enfrentar o desafio de dominar, cultivar e guardar toda a Criação de Deus.

c – A Providência de Deus: Nos Salmos 8:5 lemos: “Fizeste-o, no entanto, um pouco menor do que os anjos e de glória e honra o coroaste”.
Esta é a descrição do ser humano criado por Deus. Que diferença fez a entrada do pecado em sua vida!
Se Deus não tomasse a iniciativa de providenciar um meio de reabilitar-nos, estaríamos implacavelmente destruidos. Mas sua graça veio até nós através de Jesus Cristo e a possibilidade de reavermos nossa verdadeira natureza tornou-se real.
E Deus oferece também a esperança da transformação de toda a Criação quando efetivar a vitória final sobre o pecado (cf. Rm 8:18-24).
Estamos caminhando para o cumprimento total da promessa feita por Isaías (Is 11:1-9) e confirmada nos capítulos 21 e 22 de Apocalipse (ler Ap 21:1).

Conclusão:

A compreensão bíblica e dos metodistas do ser humano leva bem a sério a situação trágica da humanidade. O pecado original contamina e estraga não apenas cada indivíduo como também a toda a sociedade humana. Mas cremos na graça de Deus. Através dela o Paraíso pode ser reconquistado. O ser humano, e toda a sociedade, pode reaver sua verdadeira natureza e humanidade proposta inicialmente por Deus!

2. Arrependimento

Introdução

A maneira característica do Antigo Testamento para expressar o arrependimento do ser humano para com Deus e dizer que houve uma volta, um retorno: o ser humano saiu do pecado e voltou-se para Deus. No Novo Testamento, o arrependimento é enriquecido em sua significação: ele é a mudança de mente; consiste na radical transformação de PENSAMENTO, ATITUDE, DIREÇÃO.

Textos bíblicos:

• Lucas 3:1-4: João Batista chama o povo judeu ao arrependimento, como indispensável preparação para sua participação no Reino de Deus;
• Mateus 4:17 e Marcos 1:15: Jesus inicia sua missão com o desafio do arrependimento e a promessa das Boas Novas, semelhante à mensagem de João Batista;
• Isaías 1:10-17: O povo é desafiado a voltar-se para Deus, fazendo o BEM, caso contrário ele não aceitaria o culto, o louvor ou a adoração;
• Amós 5:11-14: O arrependimento toma forma de imperioso chamado à obediência da aliança do povo com Deus. Se não se arrependesse, não teria vida;
• Lucas 18:9-14: Só pode haver arrependimento se o ser humano reconhece que é pecador. So assim ele pode ser justificado;
• Romanos 10:11-15: É preciso que alguém fale de Jesus, o que ele exige e a esperança da Salvação que nele há, , para que se oportunize o arrependimento e a seguir, creia nele (Jesus).

O que é arrependimento: Não podemos confundir arrependimento com remorso ou desespero. As emoções de tristeza ou remorso e as lágrimas que acompanham tais sentimento, não são o arrependimento e nem o tornam verdadeiro.

O arrependimento possui dois momentos, segundo os ensinamentos bíblicos: a auto-conhecimento e a produção das obras de arrependimento.

O AUTO-CONHECIMENTO é a correta compreensão do estado religioso de cada um de nós. Deus emprega muitos meios para nos fazer enxergar como realmente somos. O meio mais cumum é a Bíblia. Ela é como um espelho onde nos vemos tal qual somos.

O povo judeu por se julgar escolhido e ter assegurado provilégios que os gentios não possuiam, não conseguia enxergar sua condição de “raça de víboras”, tal era o seu distanciamento da vontade de Deus. Foi necessário João Batista e o próprio Jesus mostrarem como o povo seguia a Lei mas não tinha compaixão; como observar as festas, os cultos e os sacrifício, mas não praticava a Justiça, o Amor e a Santificação.

Como nos arrepender de algo se nos achamos ótimos?

As OBRAS DIGNAS DO ARREPENDIMENTO eram exigidas do povo após o reconhecimento dos pecados: repartir as túnicas e os alimentos, não cobrar impostos injustos, não explorar o próximo, não roubar ou maltratar alguém. Por outro lado, praticar o amor e o serviço de Deus e ao próximo, andando a segunda milha, amando até aos inimigos e mostrando verdadeira transformação em sua CONDUTA.

Conclusão:

O arrependimento consiste no abandono do pecado e no voltar-se para Deus e seu serviço (ministério). A mente que é o âmago do ser humano, é radicalmente transformada pelo arrependimento. O arrependimento inclui a tristeza, e geralmente lágrimas, pelos pecados cometidos e dá oportunidade para que a Graça de Deus alcance o ser humano e o leve à justificação.

O arrependimento é o primeiro movimento para a salvação (Mt 4:17). Deus está nos convidando ao arrependimento e torna possível uma resposta positiva através de sua Graça Preveniente. Um cadáver nada pode responder, mas o pecador e pecadora até o último instante tem a oportunidade de fazer o primeiro movimento.

3. Graça Preveniente

Introdução

Havendo chegado à conclusão de que o ser humano é pecador, sem possibilidade alguma de, por si mesmo, libertar-se do pecado e recuperar a comunhão com Deus que lhe seria possível em estado de pureza, somos agora levados à pergunta mais importante para a nossa vida: Como podemos nós ser salvos? A resposta está na própria Escritura: “Pela Graça de Deus sois salvos”.

Textos bíblicos:

• Deuteronômio 30:15-20: diante da Graça de Deus, o ser humano não pode ser indiferente. A Graça exige uma resposta. No texto, o povo de Israel foi chamado a escolher entre a VIDA e a MORTE.

• Josué 24:19-24: Josué explica ao povo de Israel as duas opções: servir ao Senhor ou não. Após a escolha lhe restava arcar com as conseqüências dessa escolha.

• Salmo 119:30: o salmista declara sua escolha e decisão.

• Isaías 1:18-20: aí está o convite à Graça. Não há pecados horrendos que Deus não possa perdoar. Ele continua convidando ainda hoje à participação de sua Graça e perdão.

• Ezequiel 18:30-32: Como um Pai amoroso, Deus se aflige com a perdição de sua criatura e apela para a conversão e a vida.

a – O Que é Graça de Deus? Quando se fala em graça de Deus tem-se, geralmente, a impressão de que é algo que Deus concede ao ser humano, uma realidade independente de Deus, uma força misteriosa, um poder extraordinário, que opera a salvação.

Todavia a graça de Deus não é nada mais que a disposição benevolente de Deus para com o ser humano, sua misericórdia posta em ação a favor do ser humano, exercendo-se de tal maneira que o ser humano possui agora uma possibilidade de ser salvo. Dizer “somos salvos pela graça de Deus”, significa então que somos salvos pela misericórdia de Deus posta em ação a nosso favor.

De todas as coisas que a Bíblia revela aos homens e mulheres, nenhuma é tão única e importante como a existência em Deus de um tal espírito de misericórdia e amor para com o ser humano pecador. Deixados sem esta revelação, homem e mulher, não teriam certeza de coisa alguma. Se se considera como se desenvolveram as religiões nascidas da supertição humana, de sua observação dos fenômenos físicos e naturais (raios, trovões, seca, vulcões, etc.), se compreenderá muito facilmente como puderam surgir opiniões das mais variadas a respeito da divindade, que por se imaginá-la multiforme, na crença de muitos deuses, quer por julgá-la insensível às necessidades humanas ou sujeita aos caprichos da natureza do ser humano, podendo ora ser propícia, ora ser irritadiça, ora mesmo ser irada e desejosa de exterminar as suas criaturas.

Esse tipo de conceituação e pensamento ainda se é atribuida a Deus (Javé), na Bíblia, muitas vezes, até que Jesus Cristo surja e revele um Deus de amor e de bondade, cuja característica mais marcante é a de ser gracioso com os homens e mulheres, pronto a, por causa de sua graça, perdoar os pecadores e salvá-los de seus pecados.

E isto Ele o faz concretamente enviando o seu próprio e Unigênito Filho como redenção de toda a humanidade. É na cruz que vemos revelada de maneira mais notável, a maravilosa e salvadora graça de Deus.

b – A Motivação da Graça de Deus: Um ponto importante temos de levantar aqui: Por que motivo resolve Deus mostrar a sua graça? Qual a motivação que o leva a assim compadecer-se do ser humano pecador?

A resposta de muitos será que afinal Deus vê um valor no ser humano, sente que apesar dos seus pecados ele é digno de ser salvo porque possui em simesmo valor. Ou quem sabe, porque a sua situação de pecador não é de desgraça total, podendo através de seus esforços possuir o mérito de provocar a misericórdia de Deus.

Nenhuma dessas hipóteses, porém, é admitida por João Wesley. Para Wesley nada há no ser humano que possa alterar a posição de Deus a seu respeito. Seu coração é pecador e sua condição é de irremediavelmente perdido, uma vez que vive apenas para si mesmo. Os esforços nos quais se empenhe são totalmente egoistas, visando seu próprio benefício. Deus não é o centro de sua vida.

“A graça de Deus – diz Wesley – da qual nos vem a salvação, é gratuita em tudo e para todos. É gratuita a todos a quem é concedida. Não depende do poder ou mérito do ser humano, em nenhum grau, nem no todo, nem em parte. Do mesmo modo ela não depende das boas obras ou da retidão daquele que recebe, de coisa alguma que tenha feito ou que seja. Não depende dos seus esforços, dos seus sentimentos, bons desejos, bons propósitos ou intenções, pois todos estes fluem fa graça gratuita de Deus; são apenas a corrente, não a fonte. São os frutos da graça gratuita e não a raiz. Não são a causa mas os efeitos da mesma. Seja o que for de bom que haja no homem ou 1ue seja feito por ele, é Deus o autor e que o faz. Assim é a sua graça gratuita em tudo, isto é, não depende de nenhum poder ou mérito no homem, massomente em Deus, que nos deu gratuitamente o seu próprio Filho e “com Ele deu-nos gratuitamente todas as coisas”.

c – A Universalidade da Graça de Deus: Mas terá Deus distribuido a sua graça com todos os seres humanos? É aqui que Wesley se torna mais enfático. Nem mesmo as doutrinas católico-romanas provocaram-lhe tão grande ira quanto a propagada idéia ao seu tempo de que Deus havia escolhido uns quantos para a salvação, deixando a grande maioria perecer nos seus próprios pecados.

A chamada doutrina da reprovação, a de que Deus não apenas não se importa com milhões, mas deliberadamente os predestinou à perdição, enchia Wesley de horror, que a considerava uma terrível blasfêmia contra Deus, pois o considerava injusto, cruel e mentiroso.

A graça de Deus estava aberta a todos os homens e mulheres. Não apenas aberta a todos mas presente em todos. Wesley acreditava que a Graça Salvadora (ou Preventiva, como ele a chamava) estava em atuação no coração de todos os seres humanos, ao lado de sua consciência, a própria presença de Deus em ação, por sua misericórdia, procurando levar o ser humano ao arrependimento: “Parece ser esta faculdade a que se referem usualmente aqueles que falam de consciência natural, expressão encontradiça amiúde em alguns dos nossos melhores autores, contudo não estritamente certa, pois, embora possa ser chamada natural, por achar-se em todos os homens, não é, todavia natural, propriamente falando-se, mas um don sobrenatural de Deus, acima de todos os seus dotes naturais”.

Era esta graça universal a verdadeira boa nova do Evangelho, que anunciava a todos os homens e mulheres a salvação pela fé em Jesus Cristo. Wesley não a cria eficiente, isto é, ela não realizava a salvação, mas plenamente eficaz, suficiente e capaz para salvar a todos os que cressem.

d. Resposta à Graça de Deus: Colocada, porém, diante dos homens e mulheres a graça de Deus não lhes permitia uma situação de indiferença. ela era um desafio a que todos os homens e mulheres deveriam responder afirmativa ou negativamente. Responder indiferentemente era apenas outra maneira de repudiá-la, “apagando o Espírito”, expressão que Wesley tomara emprestada à Escritura e usava constantemente.

A rejeição consciente da graça de Deus era na verdade, a escolha da perdição eterna, uma vez que não havia outra maneira de poder o ser humano alcançar a salvação.

Isto nos leva ao ponto de considerar se o ser humano pode ou não resistir à graça de Deus. É a graça de Deus irresistível como muitos acreditavam? Absolutamente, responderia Wesley. Não apenas o homem e mulher podem resistir à graça de Deus mas até mesmo destruir aquela graça divina que já está alojada em seu coração. Neste sentido negativo o ser humano é senhor absoluto de seu destino e capitão de sua própria salvação. E algumas vezes a graça de Deus opera de maneira irresistível, “como um relâmpago caindo dos céus”, ele declara decisivamente que este não é o método usual da operação divina e que mesmo nestes casos esta irresistibilidade é passageira, dependendo finalmente do ser humano, como veremos no tópico Doutrina do Livre Arbítrio, a decisão final a respeito de sua salvação.

Ou como diz Santo Agostinho, que Wesley cita em um de seus sermões: “Qui fecit sine nobis, non salvabis nos sine nobis, “ou seja, “Aquele que nos fez sem nossa atuação não nos salvará sem nosso assentimento”(consentimento, concordância).

Obs.: As citações feitas de João Wesley foram retiradas da COLETÂNEA DA TEOLOGIA DE JOÃO WESLEY, de Burtner e Chiles, pág. 117 e 118 (1ª citação) e p. 152 (2ª citação).

4. Livre Arbítrio

Introdução

Se houve uma doutrina que causou grande discussão e criou barreiras de comunicação entre muitos e grandes pensadores cristãos do passado foi a questão de poder ou não o ser humano determinar o seu próprio destino, exercendo, o que se convencionou chamar em linguagem teológica, o seu livre arbítrio.

Muitos foram os ódios que esta discussão acendeu em virtude, porém, de esforços sinceros tanto de um lado quanto de outro, que buscavam de igual modo manter uma concepção adequada e bíblica a respeito de Deus e de seu amor. Que creram os metodistas a respeito disso?

Textos Bíblicos:

• João 1:14-18: o texto mostra como Jesus, deixando sua glória, fez-se ser humano para revelar o amor de Deus a nós. Ele se esvaziou de seu poder, livremente, sem imposição.

• Romanos 6:1-4: se morremos para o pecado, ele não tem mais domínio sobre nós. Com nova vida em Cristo andamos dirigidos por sua Graça. A vontade de Cristo passa a ser a nossa vontade.
• Efésios 2:8-10 e Tito 3:4-7: Deus nos dá a possibilidade da salvação através de sua Graça: é um dom, um presente que Ele nos oferece. Resta-nos receber esse presente. Nenhum esforço nosso, nem obras, nem sacrifícios, poderiam nos salvar, se Deus nada fizesse.

a – Que Aconteceu ao Ser Humano? Criado para a perfeição, para responder a Deus da maneira mais adequada e imediata, descobre-se o ser humano impotente para poder escolher. A experiência de Paulo, descrita em Rm 7:15 em diante, não lhe foi única. Através dos tempos a mesma frustração tem levado os homens e as mulheres, judeus ou gregos, cristãos ou pagãos, a sentirem a sua incapacidade de afirmar a sua própria vontade: “não faço o que prefiro e sim o que detesto… O querer o bém está em mim, não porém o efetuá-lo.”

A resposta que os hebreus deram a esta situação de decadência foi a criação perfeita do primeiro ser humano, seguida de sua desobediência à vontade de Deus, o que determinou todo um processo de desordem no universo, em contradição entre ele e Deus, entre ele e seu próximo e dentro de si mesmo. Esta dualidade de vontades em choque dentro da personalidade humana, foi caracterizada por Paulo como uma luta que se deve travar entre a carne e o espírito, o princípio decadente e a ansiedade de fazer a vontade de Deus, ambos presentes simultaneamente no ser humano.

O fato é, porém, indiscutível. O ser humano não tem a capacidade real de escolher entre o bem e o mal e de permanecer do lado da virtude. Wesley diz que o ser humano perdeu o seu livre arbítrio natural. Entre os artigos de religião da Igreja da Inglaterra havia um que Wesley incluiu entre os 24 que ele escolheu como padrão doutrinário dos Metodistas, como segue: “A condição do homem, depois da queda de Adão, é tal que ele não pode converter-se e preparar-se pelo seu próprio poder e obras, para a fé e invocação de Deus; portanto não temos forças para fazer obras agradáveis e aceitáveis a Deus sem a sua graça por Cristo, predispondo-nos para que tenhamos boa vontade e operando em nós quando temos essa boa vontade.”

b – Até Que Ponto Podemos Escolher? É, porém, perfeitamente verificável pela experiência de cada dia que somos capazes de escolher em nossa vida as coisas que desejamos para nós e, ao mesmo tempo rejeitar as que não nos interessam. O senso de escolha não foi extirpado em nós.

Wesley dizia que não somente o ser humano pode escolher o agir ou deixar de agir, como pode também escolher entre duas formas diferentes de ação. “Negar isto, diz Wesley, seria negar a experiência constante de toda experiência humana. Todos sentem que têm um poder inerente de mover esta ou aquela parte de seu corpo, de movimentá-lo ou não, e de movimentá-lo deste ou daquele modo como for do seu agrado. E posso, conforme escolher (e assim todos os que são nascidos de mulher), abrir ou fechar meus olhos, falar ou calar-se, levantar-me ou sentar-me, estender minha mão ou escondê-la, usar qualquer dos meus membros conforme for do seu agrado bem como todo meu corpo”.

Wesley também dizia que o ser humano era livre para escolher nas coisas de natureza indiferente. Nas coisas, porém, que envolviam questões morais sua tendência era sempre a de escolher para o mal. Dizia mesmo que a vontade do ser humano é, por natureza, livre apenas para o mal.

Entretanto, embora tivesse perdido todo o seu livre arbítrio natural em virtude da degeneração da raça pelo pecado, o ser humano, pela misericórdia de Deus, teve em si restaurada, até certo ponto, a capacidade de escolha. É o que poderíamos chamar de LIVRE ARBÍTRIO PELA GRAÇA. A Graça preventiva de Deus, na linguagem de Wesley, atuando sobre o coração do ser humano, recupera-lhe a possibilidade de responder positiva ou negativamente, aos apelos que o próprio Deus lhe faz.

A Graça dá assim ao ser humano a possibilidade de aceitar ou rejeitar esta mesma graça. A decisão, finalmente, é sua. É isto o que diz o Artigo de Religião, que afirma que a Graça de Deus em Cristo é que nos predispõe para que tenhamos a boa vontade de aceitar esta mesma graça. Quando, então, demonstramos esta boa vontade, a graça passa a operar em nós dando-nos então a possibilidade de praticar as boas obras que de outra forma nos seriam impossíveis.

c – Calvinismo e Arminianismo: João Calvino e Tiago Armínio são dois nomes que podem ser postos de pólos opostos, quando consideramos a questão da decisão humana na aceitação ou rejeição da graça de Deus.

Calvino, na Suíça, estabeleceu as linhas tradicionais da teologia reformada, rejeitando o catolicismo romano e demonstrando com argumentos bíblicos irrespondíveis que nehum ser humano tem méritos de si mesmo para alcançar a salvação, que é concedida ao ser humano por Deus em virtude de sua graça gratuita e imerecida, que promove a fé no coração.

Calvino procurou colocar Deus no seu devido lugar, como o Soberano e Supremo Criador de todas as coisas, que dirige e governa o mundo e os homens e mulheres. No desenvolvimento de sua teologia, entretanto, não encontrando explicação para o fato de que muitos seres humanos não aceitam o evangelho e fundamentando-se em certas passagens da Escritura, Calvino chegou à conclusão de que Deus predestinou alguns seres humanos para a salvação, operando em suas almas, por sua graça irresistível e levando-os à fé. A princípio Calvino nada afirmou a respeito dos demais, dos que não creram em Cristo. Posteriormente, porém, o desenvolvimento lógico de sua posição teológica o levou a admitir que Deus havia também predestinado a estes para a perdição.

Tiagi Armínio, que nasceu na Holanda quatro anos antes da morte de Calvino, tornou-se pastor reformado em seu país e seguidor de perto das idéias calvinistas. Quando lhe pediram entretanto, que elaborasse uma tese para defender o calvinismo, especialmente no que diz respeito à predestinação, Armínio parou para pensar e concluiu que esta doutrina era incompatível com o testemunho total da Escritura. Ele concluiu que a exaltação do Criador exigia a liberdade do ser humano. “De suas mãos saíram um ser racional, feito espiritualmente à sua semelhança e não um autômato. Dotara-o com a capacidade de escolha e opção; fê-lo responsável pela consequência da escolha; deu-lhe disposições para conhecer a Deus e gozar a vida eterna… Admitida a predestinação absoluta, o livre arbítrio torna-se impossível, porque a vontade já se acha determinada em seu exercício. qualquer ordem dada a qualquer ser humano, nestas condições, é contra senso.

Confrontado com as duas posições, João Wesley não teve dúvidas: abraçou o arminianismo neste ponto, chegando mesmo a dar à publicação que fazia periodicamente para os metodistas o nome de A Revista Arminiana. “Sem a liberdade, diz Wesley, não pode haver mal nem bem, moralmente falando, virtude ou vício. A virtude não existe, a não ser quando um ser inteligente conhece, ama e escolhe o que é bom; nem existe o vício, a não ser onde um ser conhece, ama e escolhe o mal”.

Qualquer doutrina que nega o livre arbítrio concedido pela graça de Deus já em operação no coração humano, destrói a possibilidade da compreensão humana e faz do homem e da mulher nada mais do que uma simples máquina, mera sombra daquilo que ele e ela na realidade são, trasformando-os em brinquedo de marionetes nas mãos de um tirano. E não é assim que Deus se relaciona conosco.

5. Fé Salvadora

Introdução

Sabemos que o pensamento central do Novo Testamento é o de que Deus enviou seu filho para ser o Salvador do mundo. A atitude mediante a qual o ser humano abandona toda a confiança em seus próprios esforços para obter a salvação, quer sejam ações de piedade, de bondade ética, ou seja lá o que for, chama-se fé.

Textos Bíblicos:

• Marcos 1:15: Após o arrependimento, é necessário crer no Evangelho, isto é, ter fé que Jesus pode salvar;
• Lucas 4:18-19: Aí está a síntese da missão de Cristo. Só Ele cumpriu o que estava previsto em Is 61:1-2;
• 1 Coríntios 2:1-5: O apóstolo Paulo depositava sua fé inteiramente em Jesus Cristo e sua pregação objetivava que os coríntios fizessem o mesmo.

a – Diferença entre crença e fé: Entende-se por crença a aceitação intelectual ou o consentimento a uma verdade doutrinária. A fé salvadora vai além de se crer na encarnação, na morte sacrificial de Jesus e na sua vitória sobre a morte.

Fé em Cristo é a entrega pessoal de nossa vida a Cristo em confiança e obediência.

b – A fé como confiança: John Wesley pregou e escreveu muito sobre a natureza e conteúdo da fé, mas sua posição básica continuou até o fim: a fé é a confiança em Cristo e só n’Ele para a salvação!

A fé não consiste em aceitar certas coisas como verídicas e ficar por aí. É mais que isto. Consiste em CONFIAR em uma pessoa, e essa pessoa é Jesus Cristo.

c – A natureza da fé

• A fé pressupõe engajamento no projeto e obra de Jesus Cristo;
• Estabelece um íntimo relacionamento pelo qual não somos mais nós (Gl 2:20);
• A fé significa lançar-se sem reservas nas mãos misericordiosas de Deus; implica em completa dependência de Deus e plena obediência a Ele;
• A fé significa também, apegar-se às promessas de Deus. Não só de que o Sangue de Cristo nos salva, como também a promessa de que receberemos poder pelo seu Santo Espírito. É a firme convicção de que Deus é fiel nas suas promessas e poderoso para realizá-las;
• O autor da carta aos Hebreus define a fé como a certeza pela qual o ser humano aguarda com firme confiança e em plena segurança a realização das promessas divinas (Hebreua 11:1; e 10:36-38).

Conclusão:

De nada adiantará ao pecador arrepender-se de seus pecados e não confiar que Jesus Cristo pode perdoá-lo e salvá-lo. Sozinho e por seus próprios esforços não será salvo. A fé em Cristo abre o caminho para que se seja justificado, para que se nasça de novo e se percorra o processo da santificação.

6. Justificação pela Fé

Introdução

Como pode o pecador ser justificado perante Deus? Não há verdadeira paz ou alegria enquanto nossa consciência nos acusar de pecado. Para esclarecer questão de tão grande inportância, veremos qual é o fundamento geral da doutrina da justificação, o que é justificação, quais são os justificados e em que termos eles são justificados. E por fim, quais são as obras da fé.

Textos bíblicos

• Romanos 5:1-11: Deus providencia o meio de pagar nossa dívida em relação a Ele, pelo sacrifício de Jesus Cristo. Aceitar, crer, receber, apropriar-se dessa misericórdia de Deus, é ter fé. E somente pela fé podemos ser justificados.

• Efésios 2:1-10: Estávamos condenados a morte, ao tormento e à escravidão do pecado. Deus nos tira dessa terrível situação porque nos amou, mesmo sendo nós ainda pecadores.

• Romanos 3:21: O texto mostra que o ser humano poderia cumprir toda a lei e não ser salvo se não tivesse fé que Deus o justifica através de Jesus Cristo.

• Hebreus 11:6: O texto desse livro bíblico relata fatos ocorridos com várias pessoas movidas por um fator em comum: a fé. Elas criam no poder de Deus. Por isso foram até Ele, andaram, viveram e participaram do seu poder.

a – Fundamento geral da doutrina da justificação: A pessoa humana foi criada à imagem de Deus: santa, pura, misericordiosa, perfeita, incorruptível como o próprio Deus. A ela Deus deu uma lei perfeita, exigindo plena obediência a ela. Mas o ser humano desobedeceu a Deus. O pecado, então, destrói a comunhão com Deus, faz o ser humano decair da graça divina e estar sujeito ao juízo e à ira de seu Criador.

Aí está o fundamento da doutrina da justificação: “o juízo veio sobre todos os homens para a condenação”. Porém, Deus providencia um meio de reconciliação, mediante o sacrifício do “segundo Adão”, nosso representante, Jesus Cristo. Pela redenção que há em Cristo, fica preenchida a condição imposta. Não há mais condenação.

b – O que é justificação: A clara noção bíblica da justificação é o perdão de pecados. É o ato de Deus Pai, pelo qual, em atenção ao sacrifício de Jesus por nós, mostra sua justiça (ou misericórdia), perdoando-nos os pecados. Estes pecados são cancelados. Cristo tomou sobre si as nossas culpas. Sofreu, imerecidamente, em nosso lugar. Assim, estamos reconciliados com Deus mediante o sangue de Cristo.

c – Quais são os justificados? Jesus disse que os justos não precisam de arrependimento. Somente aos pecadores cabe o perdão. Deus justifica o pecador de toda espécie e categoria. É para com a nossa injustiça que o Deus perdoador é misericordioso, é de nossa iniquidade que Ele não se lembra mais.

5 – EM QUE TERMOS OU COMO SÃO OS PECADORES JUSTIFICADOS?

Sob uma condição o ser humano pecador é justificado: pela fé. Ele precisa crer naquele que justifica o pecador, pois “aquele que crer não é condenado”pois já “passou da morte para a vida”.

A fé implica não só na convicção de que Deus reconcilia o ser humano consigo mesmo através de Jesus Cristo, mas também na confiança de que Cristo morreu pelos nossos pecados, já que ele amou a cada um de nós e se entregou ao sacrifício e em nosso lugar. Deus por amor de seu filho, perdoa e absolve o ser humano que até então nada pudera apresentar de bom.

O arrependimento, que antecede a fé, é um profundo sentimento da ausência do bem e a consciência da presença do mal. Só a fé traz o bem. Primeiro a árvore se torna boa; depois os frutos se fazem bons.

6 – AS OBRAS DA FÉ

Nenhuma obra, de que excelência for, pode tirar os nossos pecados, nem suportar a retidão dos juizos de Deus. Nós, metodistas, cremos que a justificação de nossos pecados se dá pela fé em Cristo Jesus. E não aceitamos que as boas obras substituam esta atuação de Cristo. As obras para este fim são inúteis (Lc 17:7-10; Rm 27:31).

No entanto, uma vez justificados, nossa fé em cristo é testemunhada em obras (=serviços). Como parte do Corpo de Cristo somos chamados e preparados para dar bons frutos. São estes que revelam a natureza, a profundidade e a extensão da nossa fé.

Os protestantes, em geral, enfatizam de tal modo a justificação só pela fé, que tendem a esquecer ou menosprezar a importância do serviço, do engajamento do crente.

7 – OUTROS PONTOS A SEREM CONSIDERADOS:

a) Se as nossas obras, sejam quais forem, buscam no íntimo o louvor e a glória para o nosso próprio nome, ou acúmulo de méritos pessoais, nenhum valor têm, pois não foram feitas NO e PARA o Senhor. Não vêm d’Ele. Ele não as aceita.

b) Nenhum esforço ou empenho feito através das obras (serviço), consegue satisfazer todas as exigências da lei.

c) Não existe contradição entre os ensinos de Paulo e Tiago, em suas colocações sobre a fé e obras. Os ensinos se completam e nos ajudam a reconhecer que a nossa salvação é pela fé e que esta fé se manifesta, se dá a conhecer, em obras de amor.

Não se concebe o cristianismo sem fé e sem obras (o serviço agradável a Deus e ao próximo).

7. Novo Nascimento

Introdução

Por que terá Jesus se admirado de que Nicodemos, o mestre israelita que o visitou à noite, não entendesse sua declaração de que lhe era necessário nascer de novo?

A princípio fica difícil entender a admiração de Jesus diante deste fato, uma vez que julgamos ser a expressão peculiar aos lábios do Senhor, não tendo Nicodemos o mesmo dever de entendê-la profundamente.

João Wesley, entretanto nos ajuda a compreender a admiração de Jesus ao nos informar que a expressão “nascer de novo” era corrente em Israel. Quando um gentio se convertia à fé judaica, antes mesmo de ser submetido ao ato de circuncisão, era batizado como sinal de sua morte para o paganismo e de sua adoção na família de Deus. Diziam-lhe então que ele nascera de novo, passando a viver uma nova vida na comunidade de Israel. Daí a admiração de Jesus. Porque Nicodemos, sendo um mestre em Israel, deveria entender destas coisas. Mas aí também estava a razão do espanto: admiração e confissão de ignorância por parte de Nicodemos. Afinal de contas ele era judeu, circuncidado desde os oito dias de nascido, trazendo no corpo as marcas da fidelidade a Javé. Por que lhe dizia Jesus ser-lhe também necessário nascer de novo?

1 – TEXTOS BÍBLICOS

• Jo 1:12-13 – O texto explica que todas as pessoas que crêem em Cristo passam a ser filhos de Deus porque essa é a vontade do Pai. O poder de sermos filhos de Deus depende então de crermos em Cristo e aceitar a vontade de Deus para nós.

• Jo 3:15 – Jesus explica a Nicodemos o que significa nascer de novo: a transformação do íntimo do ser humano pela ação do Espírito Santo. Para Nicodemos, que pensava em coisas concretas e visíveis, era difícil compreender o que Jesus lhe ensinava.

• I Pe 1:22-23 – Em várias ocasiões, como na Parábola do Semeador, Jesus compara sua Palavra com a semente. Neste texto Pedro retoma essa figura dizendo que a Palavra é como a semente que não morre jamais e é por ela que somos regenerados e modificados. E nesta condição estamos aptos a sermos obedientes a Deus e cheios de amor uns para com os outros.

• I Jo 3:9 – Se realmente somos filhos de Deus, não temos prazer em praticar o pecado, pois em nós está a Palavra de Deus que nos faz repudiar o pecado. Novamente a Palavra é comparada à divina semente.
• I Jo 5:3-4 – Se somos nascidos de novo para Deus temos algo a nosso lado para vencer os pecados e guardar os mandamentos de Deus: a fé.
2 – O NOVO NASCIMENTO: IMPORTANTE E MISTERIOSO

Wesley compreendeu a tremenda importância que Jesus dava ao novo nascimento ou regeneração individual. Para o fundador do Metodismo esta era a segunda doutrina fundamental do cristianismo. Uma condição indispensável para a salvação.

O novo nascimento não era algo que se dava antes da justificação (que examinamos na lição anterior) nem posterior a ela. Ao contrário. No mesmo momento em que uma pessoa era justificada de seus pecados por meio da fé no sacrifício de Cristo, sinal definitivo da graça de Deus, esta mesma graça operava em seu coração o novo nascimento, a regeneração de sua vida, sendo a pessoa mudada realmente em nova criatura.

Misteriosa como fosse a explicação que Jesus deu a respeito da maneira que se dava o novo nascimento e por que processos de mudança passava a pessoa para ser transformada assim, o fato permanecia, embora não se pudesse esclarecer como ocorria.

Wesley nunca teve a pretenção desse esclarecimento: “Não que devamos esperar por alguma explanação minuciosa, filosófica, acerca da maneira por que isso se faz. Nosso Senhor suficientemente nos previne contra semelhante expectativa… Podes estar tão certo do fato, como o soprar do vento; mas o modo preciso por que isso se faz, como o Espírito opera na alma, nem tu, nem o mais sábio dos filhos dos homens será capaz de explicar.”

3 – A NATUREZA DO NOVO NASCIMENTO

Para explicar o que realmente resulta donovo nascimento na vida do ser humano que é justificado pela fé em Cristo e transformado pelo Espírito Santo, Wesley lança mão dos fatos que marcam o nascimento natural, duas realidades que possuem grande analogia entre si.

Uma criança no ventre de sua mãe tem olhos mas não vê,, tem ouvidos mas não ouve. O uso de seus outros sentidos não se desenvolveu ainda, ela não tem conhecimento algum do que se passa no mundo exterior e nem tem compreensão alguma a respeito de qualquer coisa. Não podemos dizer que a criança do ventre de sua mãe esteja realmente vivendo. É somente quando ela surge para o mundo, quando nasce, que realmente começa a viver. Agora começa a experimentar uma porção de coisas diferentes das que conhecia. Agora a criança respira. Dentro em pouco os seus sentidos estarão plenamente desenvolvidos e capazes de captar os sinais do mundo em que agora vive.

“Como o paralelo se verifica em todos esses exemplos. Enquanto o homem se encontra no estado meramente natural, antes que seja nascido de Deus, possui, em sentido espiritual, olhos e não vê… possui ouvidos mas não ouve… Seus demais sentidos espirituais estão anulados e é o mesmo que não os tivesse… Daí não ter conhecimento de Deus, nenhum contato com Ele: o homem natural não se relaciona com Deus de modo nenhum… Logo, porém, que é nascido de Deus há uma total mudança em todos aqueles pormenores. Os “olhos do seu entendimento são abertos”… ele vê a luz da glória de Deus…”na face de Cristo”. Seus ouvidos, sendo abertos, é agora capaz de ouvir a voz interior de Deus dizendo: “tem bom ânimo; teus pecados estão perdoados.”

O novo nascimento é, portanto, a transformação que Deus opera na alma, quando, pelo seu Espírito, regenera a criatura humana, modificando o seu centro de referência, não vivendo mais a pessoa para si mesma, mas para Deus. Caminhando para sua santificação, que se inicia realmente com este acontecimento, como veremos posteriormente nesta unidade de estudos.

Como dissemos, João Wesley afirma que “a justificação do cristão e seu novo nascimento ocorrem simultaneamente. E é fácil entender por que motivo ele faz esta afirmação. O fato é que a justificação do ser humano pecador, que é realizada por Deus por sua graça gratuita e que não leva em conta os méritos do pecador, não fosse acompanhada por um ato de purificação realizado no ser humano e isto simultaneamente, seguir-se-á que descobriríamos a graça de Deus operando em um patente desafio à própria justiça divina, uma vez que Deus estaria perdoando ao pecador e ao mesmo tempo permitindo que ele continuasse no pecado. A justificação não é uma mera desculpa paternal dos pecados humanos. Se Deus perdoa o pecado, Ele ao mesmo tempo purifica o pecador, a pecadora.

4 – O NOVO NASCIMENTO E O BATISMO

Wesley mantendo como um dos artigos de religião o que diz ser o batismo (além de um sinal de profissão de fé e de diferenciação entre os pagãos) “um sinal de regeneração ou de novo nascimento”, é obrigado a definir melhor o que isto realmente significa. Em sua mente, nenhum relacionamento necessário havia entre o sacramento e a regeneração. Wesley repudiava a idéia de que os que haviam sido batizados haviam necessariamente nascidos também de novo.

Wesley não pretendia rejeitar o ensino da Igreja Anglicana (dentro da qual surge o movimento metodista) de que o batismo infantil era simultâneo com o novo nascimento nas próprias crianças. Mas ele simplesmente recebe esta posição sem comentá-la. Em lugar algum ele a defende como parte integrante de sua posição doutrinária. Ao contrário, se a criança que foi batizada, não mostrar em sua vida os sinais do novo nascimento, o seu batismo de nada valeu: “O batismo é o sinal exterior desta graça interior, que nossa igreja supõe (note-se a expressão) ser dada com e através deste sinal a todas as crianças e a todos aqueles adultos que se arrependerem e crerem no Evangelho. Mas quão extremamente fúteis são as discussões comuns a respeito disto! Eu digo a um pecador: ‘você precisa nascer de novo’. ‘Não’, dizes tu, ‘ele já foi nascido de novo no batismo. Portanto não pode nascer de novo agora’. Mas, oh! Quão trivial é isto! Que importa se ele era então um filho de Deus? Ele é manifestamente um filho do diabo; faz as obras do seu pai. Não brinquemos com questões de termos. Esse “ele” precisa passar por uma mudança total em seu coração. Em alguém que não foi batizado tu mesmo chamaria a esta mudança de novo nascimento. Em relação a “ele”, dá-lhe o nome que quiseres; mas lembra-te agora, que se ele ou tu mesmo morrer sem isto, o vosso batismo não somente não vos beneficiará de modo algum como, ao contrário, aumentará ainda mais a vossa condenação”.

É verdade que algumas vezes Wesley não foi muito claro em sua exposição a respeito do batismo. Em um tratado sobre o batismo ele usa parte de um livro escrito por seu pai, na qual chega mesmo a admitir que o Batismo é simultâneo à regeneração. No volume total de suas obras, porém, de acordo com as linhas básicas de sua teologia, Wesley tinha por certo o fato de que o batismo não tem necessariamente esta simultaneidade: “…é certo que todos os que são batizados em idade adulta não são ao mesmo tempo nascidos de novo. ‘A árvore é conhecida por seus frutos’. E destes resulta, demasiadamente claro para ser negado, que vários que eram filhos do diabo antes de serem batizados, continuaram na mesma condição depois do batismo…”

A regeneração ou novo nascimento, portanto, nada tem a ver com os sinais externos, sejam eles o batismo ou quaisquer outras formas com que se pretenda demonstrar a sua realidade. Ao contrário, ela se revela antes por uma vida transformada, em decorrência da qual o cristão, homem ou mulher, torna-se centralizado em Deus, vivendo em amor e vitória constante.

Bibliografia:

1 – Sermões de Wesley, Vol II (pg 387, 388,389,394)
2 – The Teology of Wesley, W.R.Cannon

8. Testemunho do Espírito

Introdução

“Coube aos Metodistas o terem compreendido, explanado e defendido, mais de perto, restaurando esta grande verdade do Evangelho, após ter estado por muitos anos quase perdida e esquecida.” (Sermões de Wesley, Vol I, pg 220).

Textos Bíblicos:

• Rm 8:14-16 – O Espírito de Deus mostra nossa filiação;
• Lc 18:9-14 – A diferença entre a certeza da salvação e a segurança de um “estado espiritual conveniente”;
• Mt 25:36-46 – A alegria do cristão pode ficar obscurecida pelas provações. Não deixará porém de existir e de se manifestar depois;
• Gl 4:6 – Deus fala de maneira direta e imediata a nós.

2 – O TESTEMUNHO DO ESPÍRITO SANTO:

O testemunho do Espírito é uma impressão íntima feita sobre nós, pela qual o Espírito de Deus testifica diretamente ao nosso espírito que somos filhos de Deus. Passamos a ter consciência de que Cristo nos ama e deu-se a si mesmo por nós; e que todos os nossos pecados são cancelados. Estamos, então, conciliados com Deus.

Este testemunho precede nosso amor a Deus e a santidade de vida, bem como o testemunho de nosso próprio espírito que somos filhos de Deus. É a partir da tomada de consciência, da certeza íntima e profunda de que fomos perdoados e reconciliados com Deus porque Ele nos amou primeiro, sem que merecessemos isto, é que acontecem as outras coisas: o amor a Deus e o nosso próprio testemunho.

Durante muitos anos John Wesley não teve esta consciência: ele duvidava de haver sido totalmente perdoado e de ser filho de Deus. O testemunho do Espírito é imediato e direto (Gl 4:6); não é resultado de reflexão ou argumentação. Ele nos faz crer e permitir que a vida, a partir daí, seja vivida pela fé em Cristo, que nos ama e morreu por nós. Ele nos faz chamar a Deus de “Pai”como a criança que depende e espera tudo de seus pais. Ele ainda nos dá a certeza de que só é possível nossa justificação perante Deus, pelo que seu filho sofreu por nós.

3 – O TESTEMUNHO DO NOSSO PRÓPRIO ESPÍRITO:

Do mesmo modo que temos conciência de que estamos vivos, podemos ter a evidência de que somos filhos de Deus, quando descansamos nesta certeza; quando percebemos que amamos a Deus e nos alegramos em fazer sua vontade.

“O testemunho do nosso espírito manifesta-se em termos da íntima convicção, evidenciando, acima de toda dúvida razoável, a realidade de nossa filiação divina”(Sermões de Wesley, vol I, pg 207).

A certeza da salvação, a segurança do perdão, a absoluta confiança de que o sacrifício de Cristo nos reconcilia com Deus, nos dá uma paz que ninguém e nada no mundo pode tirar. É a paz sobre a qual Jesus se referia: “A minha paz vos dou”. Toda a dúvida sobre o amor de Deus é excluída da nosa vida e passamos, naturalmente, a produzir os frutos desta convicção.

4 – AS PROVAS DE QUE SOMOS FILHOS DE DEUS:

O fato de sermos filhos de Deus e a convicção disto se evidencia por:

a) Profundo sentimento de amor a Deus que se expressa na alegria de fazer a sua vontade, de obedecer-lhe, de participar da sua Missão, de estar em comunhão com Ele;

b) Sentimento de amor ao próximo que se expressa na misericórdia, paciência, tolerância, hospitalidade, cuidado no falar, etc;

c) Na prática da justiça. O filho de Deus enxerga a injustiça, denuncia-a e tudo faz para que se restabeleça a justiça;

d) Ele nasce de novo para Deus. O pecado e suas consequências não o atraem mais. Sua escala de valores é centralizada em Deus e toda a sua vida é dirigida por Ele (Ef 2:1-6).

5 – CONCLUSÃO:

A convicção de que somos filhos de Deus pelo testemunho do Espírito Santo e pelo nosso próprio espírito, não nos leva a ser pessoas extasiadas e estáticas.

Ela tem uma razão de ser: dá-nos PODER como filhos e HERDEIROS de continuar a obra de Cristo sem temor. Faznos responsáveis na concretização do plano de Deus para a instauração de seu Reino neste mundo e nos impulsiona à ação.

Alienar-se ou acomodar-se é negar este PODER. É urgente que façamos uso deste maravilhoso dom, aprppriando-nos inteiramente dele!

9. Santificação ou Perfeição Cristã

Introdução
O termo “santificação” tem dois sentidos básicos: o primeiro entende a santificação como uma posição, estado ou relação e é traduzido por “separação”, “corte”, “consagração para uso exclusivo”. Era santificado tudo o que era separado do comum ou secular, para uso sagrado.

O segundo significado diz respeito à condição, estado, ou processo que leva a uma transformação interna e que resulta em pureza, retidão moral e pensamentos santos expressados por meio de uma vida de piedade e de bondade, em relação a Deus e ao próximo.

Textos Bíblicos

• Mt 5:43-48 – O aspecto da santificação através do amor.
• Fl 2:5-11 – Ter a mente de Cristo, a mente de abnegação e de esvaziamento, tudo em benefício de outrem.
• Ef 5:25-27 – Cristo santifica sua Igreja ao lhe dar sua Palavra de verdade, amor e libertação.
• Hb 12:10 e 14 – A santificação, incluindo a pureza de coração é essencial à salvação final.

2 – A SANTIFICAÇÃO NO PENSAMENTO DE JOÃO WESLEY:

Para Wesley, a Santificação e Perfeição Cristã, “são dois nomes para definir a mesma coisa. Não há perfeição na terra. O ser humano tem sempre necessidade de crescer em graça e avançar diariamente no conhecimento e no amor de Deus”. (Sermões de Wesley, vol. 2, pg 286).

Não existe, nesta vida, uma perfeição tal que implique na dispensa da obediência dos mandamentos de Deus e da prática do bem a todos os seres humanos, enquanto há tempo. Enquanto vivermos estaremos sujeitos à ignorância e ao erro nas coisas não essenciais à salvação, bem como às tentações e fraquezas próprias de nosso corpo corruptível.

3 – EM QUE SENTIDO PODEMOS ALCANÇAR A SANTIFICAÇÃO OU A PERFEIÇÃO CRISTÃ?

João Wesley entende por uma pessoa que alcançou a santificação ou perfeição cristã “aquele em quem existe a mente de Cristo e que anda como Cristo andou; aquele que tem as mãos limpas e o coração puro, que foi lavado de todas as impurezas, que não é motivo de tropeço para os outros”. É aquele sobre quem o pecado não tem mais domínio (Romanos 6:11).”

Em I Jo 5:18 lemos: “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive em pecado, antes, aquele que nasceu de Deus o guarda, e o maligno não o toca”.

4 – COMO SE REVELA A SANTIFICAÇÃO?

A santificação se revela através da vida da pessoa que pode afirmar: “estou crucificado com Cristo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim”.

Esta pessoa ama a Deus e o serve com alegria; ama a seu próximo como a si mesmo. E isto se expressa por sua misericórdia, bondade, mansidão, tolerância, bem como na prática das obras de fé e amos. Tudo quanto faz é em nome, no amor e no poder de Cristo.

5 – A SANTIFICAÇÃO É OBRA DO ESPÍRITO SANTO:

O Espírito Santo habitando em nós, conduz o processo da santificação que se inicia com a fé em Jesus Cristo, o perdão dos pecados e a regeneração de nossa vida.

O Espírito Santo santifica nossa vontade de tal maneira que passamos a escolher o BEM e dizer NÃO ao mal e ao pecado. Fica-se livre para não se cair em tentação. Nossa opção passa a ser a de Cristo; nossa vontade e nosso viver só tem sentido se são a vontade e o viver do nosso Mestre.

O Espírito Santo leva-nos a traduzir a santificação em OBRAS (= SERVIÇO). Não é a santidade buscada em conventos, isoladas das aflições e tentações do mundo. Nem é aquela que se nutre na comunhão com Deus e com os irmãos da fé, como em um refúgio, isolando-se e alienando-se das necessidades dos outros que estão fora do círculo dos cristãos.

O amor transborda de tal maneira nos corações das pessoas santificadas pelo Espírito Santo que é impossível a elas ficar quietas perante a injustiça, a falsidade e todas as outras necessidades das criaturas de Deus.

6 – CONCLUSÃO

Ansiar pela santificação é ter um objetivo overnando todos os nossos sentimentos. É querer dedicar a vida a Deus e devotar tudo o que somos a Ele. É querer ter a mente de Cristo que nos capacita a andar como Ele andou; é ser livre para escolher sempre o bem e não pecar. É ter tanto amor que amar passa a ser tão natural como respirar.